quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Marinha e os Fuzileiros em África

Plano Naval

O plano naval no seu conjunto foi afectado pelos ajustamentos da política nacional e teve de ser adaptado para a “guerra contra-subversão de África”. Os navios da Marinha de Guerra Portuguesa existentes não tinham sido concebidos para África e não correspondiam às necessidades de combate em rios. A maior parte deste material (Contratorpedeiros, Corvetas, Patrulhas, Lanchas de Fiscalização e de Desembarque…) foram adquiridos à França, Alemanha e Estados Unidos. No fundo, tinham sido navios e embarcações concebidas e construídas para as operações anfíbias da 2ª Guerra Mundial e que foram adaptadas para operar em águas dos interiores e fluviais. Isso aconteceu com os franceses no Viet Minh e mais tarde, em 1965, com os Estados Unidos.
É interessante, a referência no Livro de John P. Cann ( A Marinha em África…), página 70, alusiva ao Vice-Almirante Sachetti, a propósito da “Estratégia Emergente”, passo a citar: “ Logicamente seria de esperar que os vários planos navais fossem um reflexo da política e da estratégia naval portuguesa e decorreriam destas. Tal não era o caso, porque não havia quaisquer documentos formais que os descrevessem. Sem estas linhas mestras, a composição da esquadra proposta tornava-se sujeita a um qualquer número de variáveis. Como Saccheti referiu justamente, a definição de uma estratégia concertada e a sua evolução é muitas vezes o resultado de uma análise subsequente que explique o que aconteceu e porque aconteceu em vez de ser um processo estabelecido para guiar para actividades futuras”.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Marinha e os Fuzileiros em África



A 2ª Marinha
A 2ª Marinha dá os seus primeiros passos em 1956 (quando começaram a surgir problemas de insurreições no Congo Belga) com a criação dos Comandos Navais em Angola e Moçambique e dos Comandos de Defesa Marinha. Todo o Plano Naval da nossa Marinha de Guerra, desde 1930 era oceânico. Depois da 2ª Guerra Mundial e com a integração de Portugal na aliança Atlântico (NATO em 1955) a Marinha teve de se reorganizar segundo os novos padrões de exigência. Para isso houve necessidade de treinar aceleradamente os seus quadros, com a adaptação do pessoal militar a uma nova realidade de acordo com as políticas no âmbito da aliança.
O novo plano, que teve inicio a partir de Janeiro de 1957, obrigava a revisão da “política da canhoeira” que até então tinha servido África e o Ultramar. Nesta perspectiva, surge a ideia de uma Marinha com uma força de Fuzileiros embarcados em porta-aviões, preparada para actuar em apoio das operações terrestres, com grande mobilidade e flexibilidade tal como os “Royal Marines” ou “U.S. Marines.” Esta ideia contaria com a previsível oposição da Força Aérea Portuguesa e do Exército porquanto os seus custos absorveriam uma parte maior do orçamento da Defesa. Por outro lado, a aviação naval fora fundida na Força Aérea Portuguesa, em 1952, e necessitava de recursos disponíveis para a aviação.
Uma segunda linha de pensamento, mais clássica e menos dispendiosa, apontava para uma força de fuzileiros e navios de porte adequado para operações nas águas interiores, adaptados ao ambiente africano (idem p. 59). O conflito que se previa era uma guerra de guerrilha que não requeria a projecção do poder a partir do mar. A experiência francesa no delta do Mekong, na Indochina, demonstrara a eficácia de uma força pequena, especializada e de relativo baixo custo, apoiada por aviação baseada em terra. Assim, em 1961, de acordo com um plano nacional, encetaram-se negociações com o estaleiro alemão para a aquisição de corvetas. A partir de 1966, a corveta foi apresentada como num conceito modular de sistema de sensores e armas, e o projecto constituiu um dos sucessos mais notáveis de engenharia naval portuguesa.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

A Marinha e os Fuzileiros em África

Comentário-2
Ao conversar com alguns antigos companheiros fuzileiros, que vivenciaram os treze anos de Guerra em África e nas três frentes, não gostaram de algumas das análises reflectidas nos livros de Aniceto Simões e Carlos de Matos Gomes publicadas com o jornal “Correio da Manhã”. Também eu – que até gostei da Obra – fiquei um tanto desapontado e deu-me a impressão que estes autores (ex-militares do exército) não foram lá muito imparciais em relação à Marinha e aos Fuzileiros; ou então é a própria redacção que deixa margem para interpretações várias… Assim, na página 82, livro 2 pode-se ler:
1. “ Os fuzileiros foram criados por decisão exclusiva da Marinha, que não queria ficar de fora da guerra em terra”. “A criação destas unidades resultou de necessidade da Marinha, mas nunca foi enquadrada nas necessidades gerais das Forças Armadas … como se houvesse uma Guerra da Marinha, outra do Exército e outra da Força Aérea.”
2. “Os Destacamentos de Fuzileiros Especiais e a Companhia de Fuzileiros organizavam-se de acordo com a doutrina da Marinha e sem qualquer coordenação com o Exército, que seria responsável pelo dispositivo operacional e pelo emprego das forças”
Este tipo de análises não são, do meu ponto de vista, felizes e não traduzem a verdadeira dimensão do problema. Até parece que a (re)criação dos fuzileiros foi um luxo da Marinha (decisão exclusiva) e não uma necessidade político-militar, nacional e integrada num esforço de guerra… ou que o Presidente do Conselho, Prof. Oliveira Salazar, que até assumiu a pasta da Defesa Nacional, após ter demitido o general Botelho Moniz, então ministro da Defesa Nacional em 1961, não estivesse devidamente informado!
A Marinha não prestou apenas apoio logístico as forças terrestres do exército, nem se limitou a transportar os militares nas rotas fluviais e do litoral, nem a patrulhar e fiscalizar as comunicações marítimas e fluviais, nem a assegurar os meios de comunicações das suas Estações e Rádio Navais que serviam todas as forças armadas – o que já era muito! Projectava também a sua actuação ofensiva em terra, artilharia, protegendo inclusive a progressão no terreno das forças terrestres… Houve mesmo secções das guarnições dos navios em Ambriz e Ambrizete que actuaram conjuntamente com o exército em defesa das populações. Durante o início de 1961 e após os incidentes em Luanda, grande parte da população, estimada em 200.000, fugiu para o Congo onde as forças da UPA tinham os seus santuários de preparação dos guerrilheiros. O Rio Zaire e a Lagoa de Massabi (Cabinda) e mais a Sul o rio Cuanza, eram autênticas auto-estradas de passagem do IN. Quem, senão a Marinha e os Fuzileiros tinham capacidade para impedir tais incursões? Honra seja também prestada à Força aérea nos apoios logísticos, de transporte de feridos e nas acções de reconhecimento, e acções ofensivas de combate aéreo para diminuir ou eliminar a pressão dos insurrectos sobre as forças terrestres.

Continua...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

A Marinha e os Fuzileiros em África

Comentários-1

Já tinha lido parte da Obra de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes sobre a «Guerra Colonial» da Editorial Noticias. No ano que findou, foram publicados semanalmente vários livros (16), dos mesmos autores (edição Cofina), no Correio da Manhã com o título «Os Anos da Guerra Colonial». Acredito que esta forma divulgação permitiu expandir a Obra e atingir um maior número de leitores. Pessoalmente, considero uma boa Obra e um trabalho histórico bem documentado, visando, de uma forma abrangente, dar a conhecer a participação dos três ramos das Forças Armadas nas três frentes de combates em África (Angola, Guiné e Moçambique), durante todo o período em conflito até às suas independências. Igualmente considero, agora particularmente os Fuzileiros, na importante Obra "referência "obrigatória" de Luís Sanches de Baêna «FUZILEIROS – FACTOS E FEITOS NA GUERRA DE ÁFRICA 1961/1974. Por último, a Obra de John P. Cann (membro associado da Academia de Marinha para os assuntos de História Marítima, investigador e membro Auxiliar na Universidade da Virgínia; comandante aposentado e oficial de voo especializado em aviação de reconhecimento marítimo - Em 2005 publicou Contra-Subversão em África.) um livro muito interessante, intitulado «A MARINHA EM ÁFRICA – Angola, Guiné e Moçambique – Campanhas Fluviais 1961-1974» da Prefácio. Esta última Obra fornece uma perspectiva esclarecedora sobre o papel da nossa Marinha em África. Nessa medida, permite ainda analisar um ou outro facto passado descrito por outros autores sobre a mesma matéria e comparar, até comentar, determinados pontos de vista. O primeiro e o mais importante de todos são o reconhecimento deste último autor acerca do esforço dos militares portugueses em África, durante treze anos, com escassos meios, recursos materiais e humanos. A imaginação das forças armadas portuguesas e a sua capacidade inventiva para aguentar uma guerra de guerrilha desgastante…
No que respeita a Marinha cujos recursos eram paupérrimos, fizeram-se autênticos milagres. Diz John P. Cann: “ Quando os problemas começaram em Angola nos primeiros meses de 1961, a Marinha Portuguesa tinha apenas uma modesta representação disponível para ajudar a restabelecer a ordem civil e defender a integridade das suas fronteiras. E depois acrescenta: “(…) a partir de 30 de Junho de 1960, ou seja o dia da independência do Congo. Nesta altura as únicas unidades navais existentes no teatro eram uma fragata (Pacheco Pereira) dois patrulhas (Sal e S. Vicente a operar no Zaire e proximidades) e uma estação Rádio Naval, parcialmente construída”. Mas antes disso, o passo importante foi alcançado em 1959 no Plano de Construção Naval sobre a definição de duas Marinhas distintas e independentes. Uma Marinha Oceânica e europeia, integrada na NATO, e uma Segunda Marinha Africana, Fluvial para operar em África, nos rios … A primeira, para honrar os seus compromissos com a Nato que era constituída por:
6 - fragatas modernas da classe “US Dealey”,
9 - corvetas da classe italiana “Airone”,
3 - bmarinos, classe francesa “Daphné” e
18 - draga-minas;
A Marinha Africana (que partiu do zero) era formada por:
6- fragatas francesas da classe “Commandat Rivière”;
6 - corvetas da clsasse italiana “Airone”
29- patrulhas (ibidem, p. 60)
Jogar com tudo isto, sem meios, só nós portugueses… Em tempo recorde, vieram as Lanchas de Fiscalização, de Desembarque e mais duas ou três, fragatas, corvetas para patrulhamento e defesa das vias de comunicação marítima e fluvial.

sábado, 19 de dezembro de 2009

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Pessoas de carácter e com ética

Não resisti a tentação de dar a conhecer a crónica de Fernando da Costa, com o título abaixo transcrito a negrito, pelo exemplo público de pessoas com carácter e de uma só face.
A renovação de Boas-Festas para todos os meus camaradas, amigos e visitantes.

Aqui fica o texto

Seres decentes - Crónica de Fernando Dacosta.
2 Tempo Livre/OUT 2008

Quando cumpria o seu segundo mandato, Ramalho Eanes viu ser-lhe apresentada pelo Governo uma lei especialmente congeminada contra si.
Otexto impedia que o vencimento do Chefe do Estado fosse «acumulado com quaisquer pensões de reforma ou de sobrevivência» públicas que viesse a receber. Sem hesitar, o visado promulgou-o, impedindo-se de auferir a aposentação de militar para a qual descontara durante toda a carreira.
O desconforto de tamanha injustiça levou-o, mais tarde, a entregar o caso aos tribunais que, há pouco, se pronunciaram a seu favor. Como consequência, foram-lhe disponibilizadas as importâncias não pagas durante catorze anos, com retroactivos, num total de um milhão e trezentos mil euros. Sem de novo hesitar, o beneficiado decidiu, porém, prescindir do benefício, que o não era pois tratava-se do cumprimento de direitos escamoteados - e não aceitou o dinheiro.
Num país dobrado à pedincha, ao suborno, à corrupção, ao embuste, à traficância, à ganância, Ramalho Eanes ergueu-se e, altivo, desferiu uma esplendorosa bofetada de luva branca no videirismo, no arranjismo que o imergem, nos imergem por todos os lados. As pessoas de bem logo o olharam empolgadas: o seu gesto era-lhes uma luz de conforto, de ânimo em altura de extrema pungência cívica, de dolorosíssimo abandono social. Antes dele só Natália Correia havia tido comportamento afim, quando se negou a subscrever um pedido de pensão por mérito intelectual que a secretaria da Cultura (sob a responsabilidade de Pedro Santana Lopes) acordara, ante a difícil situação económica da escritora, atribuir-lhe. «Não, não peço. Se o Estado português entender que a mereço», justificar-se-ia, «agradeço-a e aceito-a. Mas pedi-la, não. Nunca!» O silêncio caído sobre o gesto de Eanes (deveria, pelo seu simbolismo, ter aberto telejornais e primeiras páginas de periódicos) explica-se pela nossa recalcada má consciência que não suporta, de tão hipócrita, o espelho de semelhantes comportamentos. “A política tem de ser feita respeitando uma moral, a moral da responsabilidade e, se possível, a moral da convicção”, dirá. Torna-se indispensável “preservar alguns dos valores de outrora, das utopias de outrora”.
Quem o conhece não se surpreende com a sua decisão, pois as questões da honra, da integridade, foram-lhe sempre inamovíveis. Por elas, solitário e inteiro, se empenha, se joga, se acrescenta - acrescentando os outros.
“Senti a marginalização e tentei viver”, confidenciará, “fora dela. Reagi como tímido, liderando”.
O acto do antigo Presidente («cujo carácter e probidade sobrelevam a calamidade moral que
por aí se tornou comum», como escreveu numa das suas notáveis crónicas Baptista-Bastos)
ganha repercussões salvíficas da nossa corrompida, pervertida ética.
Com a sua atitude, Eanes (que recusara já o bastão de Marechal) preservou um nível de dignidade decisivo para continuarmos a respeitar- -nos, a acreditar-nos - condição imprescindível
ao futuro dos que persistem em ser decentes.


segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Entre amigos


A vida é o momento. Não sei quem foi que escreveu, se escreveu e se escreveu assim… Não vou procurar e prefiro que seja assim. Tenho para mim que a autoria é portuguesa e o seu autor é Guerra Junqueiro. Devia andar na instrução primária quando li pela primeira vez um poema seu e gostei. Os miúdos da minha geração – aqueles com quem partilho momentos da vida – aprendiam a tabuada, os rios de Portugal, as serras e os ramais, as operações de aritmética, a gramática da língua portuguesa com os pronomes, os substantivos, os adjectivos, os verbos e advérbios, as preposições e as orações… Bem, deste modo, estou a ir mais longe – salvo as devidas distâncias - do que o Professor Vitorino Nemésio no programa televisivo Se bem me lembro (anos 1975/76); por sinal, este poeta, escritor e académico, era natural da Terceira, Açores, terra do nosso camarada e amigo Agostinho Maduro.
O almoço de ontem, domingo, foi mais um pretexto para estar entre amigos. Encontramo-nos no Barreiro perto de um Restaurante da casa do Alves. Coube a ele a organização e toda a logística deste encontro. O Alves, o Carlos Ferreira/Almada, Martins, Vitorino, Piriquito, Tony, eu e mais os consortes pela metade ou um pouco mais. É difícil descrever um sentimento, sobretudo quando a emoção se sobrepõe a razão, como foi e é sempre o caso, nos momentos que estou entre amigos. Amigos de verdade, amigos em quem podemos confiar, amigos de uma vida. Quando nos juntamos, conversamos sem tema prévio. Deixamos voar o pensamento ao sabor das palavras de uma amizade presente. Não importa as décadas passadas – uma, duas, três, quatro…- se a alma é grande e o coração sente.
Sei que se aproxima o Natal e, na medida do possível, aproveito para desejar a todos os meus amigos, camaradas e visitantes deste Blogo um Natal Feliz.